terça-feira, 22 de maio de 2012

Valeu Emir Sader!

Andei "roubando" algumas matérias interessantes do twitter do Emir Sader. Ótimo de seguir, ele passa várias matérias interessantes, nos poupando de fazer nosso clipping semanal ou diário. Aqui vão algumas:

Sobre a crise grega, matéria do El Pais, conta sobre alguns casos de tragédias individuais - espanhol:
http://internacional.elpais.com/internacional/2012/05/19/actualidad/1337446569_992887.html

Matéria bastante discutível sobre o "avanço" da esquerda italiana nas eleiçoes de agora (para as comunas). Mas dá um panorama do resultado das eleições - espanhol:
http://www.pagina12.com.ar/diario/elmundo/4-194584-2012-05-22.html

Marcio Pochman e suas interpretações sempre pertinentes:
http://www.cartacapital.com.br/economia/marcio-pochmann-ascensao-da-classe-trabalhadora-da-sinais-de-esgotamento/#.T7tS-Kf5JZk.twitter

Artigo de Krugman: Qué han hecho los ricos por ustedes?
http://blogs.elpais.com/paul-krugman/2012/05/que-han-hecho-los-ricos-por-ustedes.html

Piadinha do Sader: depois dos rumores de que Merkel tinha pedido aos gregos um referendum sobre ficar ou não na zona do euro, diz ele: os gregos pedem a Merkel para fazer um referendum sobre a reconstrução do muro de Berlim! Curti!

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Eleições: Grécia, Italia e França



1)   Sobre a França, análises e análises e mais análises e mais notícias. A questão é colocada como “Crescimento X Austeridade”, Sarkozy representado obviamente a austeridade e Hollande, o crescimento. Análises mais atentas percebem que a questão não é essa (ou melhor, ela pode ser apenas UMA das questões em jogo): o crescimento de outros partidos, a fragmentação do voto, que configura uma situação particolar para tempos de crise onde comumente achamos que a tendencia è uma BIPOLARIDADE. De fato, os “extremos” resceram: extrema-direita e extrema-esquerda. Mas não foi suficiente para alçar o mundo em um sentimento revolucionário do tipo “mudar tudo agora”. A situação é boa ou ruim? Por enquanto, apenas é…
2)   Na Itália tivemos eleições para sindaco (prefeito) e o que mais se destacou foi o chamado Movimento 5 Stelle, que a mídia convencionou chamar de “antipolitica”. E a fragmentação dos votos e  tendências politicas entre gerações se tornou o centro do debate, ainda mais pelo cenário europeu que acompanha as grandes manifestações de jovens “indignados”, não so na Espanha, mas na europa toda (com menos força na Italia). Mais uma vez, partidos “tradicionais” de centro perderam ou mantiveram o mesmo nível de votaçao (PDL e Lega Nord, mas também o PD, por exemplo – o primeiro o partido do Berlusconi, o segundo, o partido mais conservador, que já chegou a defender a separação do Norte da Itália, e o terceiro, partido que junta parte dos comunistas do PCI, cristãos e social-democratas). Apesar do Movimento 5 Stelle (ou M5) ter eleito apenas umzinho prefeito, aqui na região do Veneto (inesperadamente?), não se cansa de falar neles. Até porque o movimento é novo e foi fundado pelo “lider carismático” Bepe Grillo, ator, comediante, mil coisas, mas que atrai principalmente jovens pelo discurso da anti-corrupção, ecologia e internet. Ou seja, basicamente a classe média. Alguns apontam o lado inovador do movimento e, outros, seu lado conservador. A longo prazo, a gente já sabe onde isso vai dar. Eu sempre faço a pergunta: se tivesse uma revolução, de que lado eles estariam? Claro que isso simplifica muito, mas dá uma boa ideia, no estilo “teoria da vara torta”, usada tb pelo Brecht como forma didática de entender o mundo. Certamente alguns penderiam mais para cá, outros para lá, mas o certo é que ficaria claro o que há de conservador neste discurso…
Foi realmente muito bom ouvir uma discussão na TV sobre o tema (acho que foi o Infedele ou Piazza Pulita), onde uma operária textil (ela mesmo se intitulava assim) da região de Prato, levantou-se indignadamente e fez um belissimo testemunho: “Antes do euro eu não ganhava muito, mas depois da conversão eu passei a ganhar muito menos e hoje tenho que sobreviver com 1000 euros, com minha família. Porque então os politicos não sobrevivem com 1000 euros ao mês?” Nossa! Foi demais a indignação e o depoimento dela, apesar do entrevistador depois ficar dando esporro, dizendo que este não era o problema. Não é este o problema? Então nos dizem que temos que viver com 1000 euros ao mês, mas ganham 6 ou 10 vezes mais, dizem que temos que fazer sacrifícios pelo país…
Mas este depoimento foi muito emblemático do sentimento das pessoas por aqui: elas vêem na corrupção e na política um ENTRAVE ao desenvolvimento econômico. A politica (e seus politicos) se tornaram o alvo principal e a descrença nas insituições e partidos é o que definitivamente explica muita coisa por aqui.
3)   Enfim, Grécia. Deixei por último por ser o caso mais complexo e o que tenho mais discutido por aqui, uma vez que tenho dois inteligentes amigos de alojamento gregos que me dão visões muito boas (apesar de quase opostas a minha e absolutamente parciais). Um deles é professor de economia, o outro é doutorando de engenharia. Temos discutido muito sobre isso e até que a cobertura dos jornais italianos sobre o tema é interessante, especialmente a partir do MicroMega (revista no estilo Le Monde, com voz para a ampla gama da esquerda italiana), os jornais Le Sole 24ore, Il fatto Cotidiano, Corriere della Sera, e alguns bons programas televisivos (Piazza Pulita, Infedele e Servizio Pubblico).
Enfim, o caso grego marcou principalmente pelo grande aumento do partido nazista e pelo fato de nenhum partido conseguir alianças suficientes para eleger o parlamento. Uma crise mesmo! Mas discuti bastante sobre o crescimento do nazismo por aqui… em grande parte, chegamos a conclusão, são votos “contra” o sistema. Não significa que todos que votaram nos Nazis se identifiquem perfeitamente com o que defendem… mas poderiam escolher não votar, votar no KKE, votar nulo, sei lá. Tem algo a mais…
Esse algo a mais è absolutamente lógico, do ponto de vista capitalista: o capitalismo estabeleceu a lei da oferta e da procura. Se tem procura demais, a oferta não será suficiente. E, no caso do mercado de trabalho, o que, segundo os nazis, poderia “desregular” este mercado, causando o desemprego? Tudo que vem de fora: de imigrantes a especuladores. O discurso nazista, portanto, encontra no antiliberalismo e no nacionalismo a resposta a própria lei estabelecida pelo capitalismo. E isso tudo parece… lógico, para qualquer trabalhador que, inevitavelmente, vive sob esta ideologia. Um escritor italiano (Marco Revelli) que li recentemente pareceu encontrar o “ponto de bala” do problema. Embora estivesse interpretanto o “sucesso” da ideologia leghista (Lega Nord) no norte da Itália, a sua lógica argumentativa vale também para interpretar o aumento dos nazis:

“O Leghismo que fascina uma parte do mundo operário, como as sereias que tentaram Ulisses, é um resíduo sólido do trabalhismo de ontem, sem o horizonte de transcendimento que o tinha animado. A ferocidade do trabalho, sem a esperança de emancipação. A força inerte da “coisa”, que assume para si a ‘persona’ ”.

Incrívelmente lúcido!

            A seguir, falo um pouco mais sobre o debate "crescimento X austeridade" e o Movimento 5 stelle.

Suicídios e subsídios


Na cobertura do jornal TgTg (que é um jornal  televisivo comentado) o sociólogo Carlo Gelosi (http://www.carlogelosi.it/cv.html) fez OTIMOS comentários em relação ao problema da crise e do trabalho na Italia, além de outros pontos. Ao comentar sobre mais un suicidio, ele se fez perplexo e disse: o que mais me espanta é que há um silêncio sobre isso. O governo não se pronuncia sobre esta seria de suicidios que estão acontecendo cotidianamente na Italia.
Um silêncio bem eloquente, eu diria. Não sei se o mais chocante são os suicidios em série ou o total desprezo governamental sobre isso.

Subsídios para a análise do fenômeno:
é, sem dúvida, muito similar ao suicídio anômico descrito por Durkheim. A crise e a velocidade com que ela vem, subjetivamente, não deixa outra saída para essas pessoas. São na maioria homens, como tenho visto.
De acordo com a lista divulgada por este sito (http://qn.quotidiano.net/cronaca/2012/04/04/692449-suicidi-crisi-economica.shtml), com os suicídios de março e abril, a maioria são pequenos empreendedores. È uma boa reflexão para pensar a “Itália das pequenas empresas” que agora entram em colapso e levam estes pequenos empreendedores ao desespero.
Mas tem algo de particular no caso italiano que devemos considerar: país católico, com a família sendo ainda um forte valor… imaginem, neste cenário, alguém decidir se matar? Isto torna claro que o problema é ainda mais profundo.

A europa está suicidando-se (sic) (2)

Como prometido, e com atraso, a tradução do artigo de Paul Krugman. Marquei as partes que achei mais interessantes.


A europa está suicidando-se (sic)
di Paul Krugman, da Repubblica, 20 aprile 2012

É realmente difícil evitar um certo sentimento de desespero obsevando a evolução e o deterioramento da crise do velho continente. Ao invés de admitir o erro, os lideres europeus parecem determinados a empurrar a economia para um precipício – e com ela, suas sociedades. E a pagar as consequências estará o mundo todo.

No sábado, o Times publicou um artigo que fala de um fenômeno aparentemente crescente na Europa: suicídios imputados ao motivo da “crise econômica”, pessoas que tiram suas vidas pelo desespero de ficarem sem emprego ou de verem suas empresas falirem. Um artigo doloroso. Estou certo de que, no entanto, não fui o único leitor, especialmente entre os economistas, a se perguntar se a verdadeira questao não diz respeito somente ao indivíduo, já que é evidente a determinação dos lideres europeus a cometerem um suicídio economico.

Apenas há alguns meses eu nutria alguma esperança pela Europa. Talvez vocês se recordarão que ao fim do outono passado a europa parecia estar em catástrofe financeira. Mas o Banco Central europeu – o equivalente ao FED na europa – correu para ajudar a Europa. Concedeu aos bancos linhas de crédito abertas a condição que estes oferecessem como colaterais os chamados “eurobond”. Isto serviu para sustentar diretamente os bancos e indiretamentos os governos e colocar um fim ao pânico.

A situação, naquele ponto, mudou: se tratava de entender se aquela intervenção temerária e eficaz teria sido o início de uma mais ampla transformação, se a leadership europeia teria utilizado a margem de fôlego criado pelo Banco para retomar em consideração a politica que antes tinha levado a esta crise profunda. Mas não foi isso que aconteceu. Ao contrário: os lideres europeus emitiram e insistiram nas suas ideias e políticas falimentares. E dia após dia se torna sempre mais dificil acreditar que qualquer coisa possa induzí-los a mudar de caminho.

Tomem em consideração a situação da Espanha, que agora é o epicentro da crise. Naão falamos mais de recessão neste caso: a Espanha é em plena depressão com uma taxa de desocupação a 23,6%, comparável somente as taxas dos EUA nos piores tempos da Grande Depressão, enquanto a taxa para os jovens vai além dos 50%. A situação, por tudo isso, é insustentavel. Próprio da sapiência que a situação não pode mudar é que nasce a intensificação contínua da taxa de juros na Espanha.

Em um certo sentido, não interessa mesmo de que modo a península ibérica chegou a este ponto, mas – por isso pode valer – o caso da Espanha não é como diz a retórica moral tão difundida entre as autoridades européias, especialmente a que vem da Alemanha. A Espanha não foi estrangulada do ponto de vista fiscal: na vigília da crise, tinha um baixo endividamento e um excesso de balanço. Infelizmente, porém, tinha uma também enorme bolha imobiliária, em grande parte devida aos enormes emprestimos concedidos pelos bancos alemães a seus parceiros espanhóis. Quando a bolha explodiu, a economia espanhola voltou ao seco. Os problemas fiscais da Espanha säo uma consequencia da sua depressão, não a sua causa. O tratamento prescrito por Berlim e Frankfurt foi uma só: sim, vocés advinharam, um posterior arrocho de austeridade fiscal.

Esta, se queremos dizer com sinceridade, é pura loucura. A europa tinha experimentado por muitos anos, inflexíveis programas de austeridade, com resultados que qualquer estudante de história poderia prever: tais programas levam economias em depressão ainda mais fundo na depressão. E dado que quando os investidores devem avaliar a capacidade de um país a repagar o próprio débito, estudam acuradamente a situação economica, os programas de austeridade nunca funcionaram nem menos para diminuir as taxas de juros.

Qual é a alternativa? Bom, nos anos 30, uma época em que a moderna Europa estava iniciando a se reerguer de modo sempre mais confiante, um requisito basilar para a recuperação foi sair do sistema aureo (gold standart). Hoje uma ação equivalente seria sair do euro e restaurar o valor da moeda nacional. Poderia-se afirmar que isso é inconcebível, e sem dúvida se trataria de uma solução de rompante, com enormes repercussões seja no nivel economico ou politico. Por outro lado, realmente inconcebivel é a ideia de continuar nesta estrada e impor uma austeridade sempre mais intransigente a paises que já sofrem com um desemprego como dos tempos da Grande Depressaão.

Se então os líderes europeus quisessem realmente salvar o Euro, estariam procurando uma alternativa válida. A alternativa possível está assumindo de fato uma forma muito clara: o continente europeu precisa de politicas monetárias mais expansivas, sob a forma de uma disponibilidade, declarada, da parte do Banco Central Europeu para aceitar uma inflação um pouco mais alta. Mas a Europa precisa também de mais politicas fiscais expansivas sob a forma de um sistema de compensaçaão entre o budget alemao e o daqueles paises em dificuldade como a Espanha e outras naçœes da periferia européia. Ainda assim com estas politicas, as naçœes da periferia da europa deverao enfrentar anos de dificuldade.

Ao que estamos assistindo, no entanto, é uma total falta de flexibilidade. Em março, os lideres europeus firmaram o “fiscal pact”, um acordo que de fato só acha resposta a cada problema na austeridade fiscal. Ao mesmo tempo, os altos funcionarios do Banco Central não se cançam de lembrar que, ao minimo sinal de aumento da inflação, o Banco aumentara as taxas.

Em conclusão, portanto, é realmente dificil salvar-se de um certo sentimento de desespero. Ao invés de admitir o erro, os lideres italianos parecem determinados a empurrar a economia para um precipício – e com ela, suas sociedades. E a pagar as consequencias estará o mundo todo.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

A Europa está suicidando-se (sic)

Este é o título de um artigo do Paul Krugman, publicado na Repubblica na semana passada (estou terminando de traduzir). Não poderia ter mais razão, seja pela metáfora ou pelo sentido literal. Todos os dias nos jornais se vê alguma triste notícia de algum cidadão que se matou. O motivo: a crise econômica.

Esta, de ontem, conta o caso de um senhor que teve sua empresa quebrada e, por isso, teve que despedir seus empregados, incluindo seus dois filhos. Imaginem a pressão que ele deve ter passado.

http://www.corriere.it/cronache/12_aprile_29/nuoro-licenzia-figli-suicida-crisi_40700908-91f1-11e1-af61-83f104d3d381.shtml

Este era um porteiro. Com seu "licenziamento" (demissão), ele perdeu também a casa. Tinha 56 anos e dois filhos, que moravam com a mãe.

http://napoli.repubblica.it/cronaca/2012/04/30/news/riceve_lettera_licenziamento_portiere_si_impicca-34207976/?ref=HRER1-1

A maioria dos casos é no sul da Itália.

Que se renda uma homenagem a estes homens e mulheres em desespero. E que se faça imediatamente presente a esquerda revolucionária no mundo, para mudar esta situação! Não somente com palavras de ordem, mas com verdadeiros projetos, sem perder a ternura!

domingo, 29 de abril de 2012

Se non ora quando?

É realmente um numero alarmante: 54 mulheres mortas na Itália desde o início do ano por maridos, amantes, desconhecidos. Feminicídio.

http://www.repubblica.it/cronaca/2012/04/29/news/da_saviano_alla_camusso_boom_di_adesioni_all_appello_di_se_non_ora_quando_fermiamo_il_massacro_delle_donne-34131575/?ref=HREC1-7


Imagina no Brasil... segundo a CPMI (violência contra a mulher), entre 1998 e 2008 foram mais de 40 mil mortes no país. Isso daria uma média de 4.000 por ano.

O MACHISMO MATA:
http://machismomata.wordpress.com/ - ótimo blog, com notícias diárias de assassinatos contra as mulheres.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Ninguém nasce mulher. Torna-se mulher.

Fiquei um tempo sem internet, isso já deu para perceber. Ainda não resolvi inteiramente meus problemas de internet, mas já dá para fazer algum post. Antes de comentar sobre Padova e a situação italiana, o que mais me move a escrever hoje é sobre a condição da mulher. Isso, claro, por conta da discussão no STJ brasileiro sobre o aborto ou não de fetos anencéfalos.

Há alguns dias atrás, este mesmo tribunal inocentou um acusado de fazer sexo com meninas de 12 anos. Claro, como elas eram prostitutas, poderia se presumir que houve "consentimento" de todas as partes. Em uma tacada só, eles conseguiram uma façanha dupla: inocentar um pedófilo e praticamente "autorizar" a prostituição de meninas menores. Mas este foi um julgamento bastante técnico, e conduzido com todo o conhecimento que tem estes magistrados. Uma prova de que lei e realidade falam línguas diversas, e não compartilham da mesma lógica. Claro, a ideia do dever de um membro da justiça, ou melhor, Justiça, é de não se "comprometer" com valores religiosos ou morais que interfiram nas sábias decisões que tomam. O julgamento deve ser "técnico", ou seja, dentro da lógica das doutrinas, jurisprudências e antecedentes jurídicos. Mas também não existem princípios que estas leis seguem? E os princípios referentes aos direitos humanos? Ficam obscurecidos pelos critérios técnicos. Quando o princípio passa a ser a técnica, perde-se de vista a complexidade humana dos fatos. Fica a técnica, tão exaltada por ser imparcial, neutra e justa.

O STJ foi bastante criticado por esta decisão. Talvez, portanto, venha a tentar se redimir com a votação do aborto de anencéfalos.

Mas o que me comoveu nisso tudo foi um certo "envolvimento" por parte da população. Claro, a mídia deu um holofote que fez com que isso acontecesse. Mas acho que estamos passando por um momento muito profundo com estas discussões. Não podemos parar por aí, a discussão deve avançar, tal como no que diz respeito aos arquivos da ditadura militar. Eis aí assuntos de nossa memória e de nossa cultura que estão, creio, finalmente se incorporando nas demandas da esquerda de forma mais amadurecida e, o mais importante, inspirando jovens mulheres e homens a tomarem para si esta tarefa (eu estou entre eles).

Junto a isso, recebo cada vez mais inspiração (em especial da Paola Cappellin) para se pensar sobre a condição das mulheres, seja por causa da minha vida particular, seja por conta do que pesquiso. Quero ser a tal "mulher independente" da qual fala Simone de Beauvoir, mas me encontro aprisionada nas contradições que ela descreve neste livro, escrito há mais de 60 anos atrás. Como pode isso, se nossa condição não é mesma, se conquistamos nosso espaço no mercado de trabalho, a independência no trabalho (principal condição para libertação feminina), superamos muitas barreiras e temos muitos direitos? Eu não sei, mas a sensação que tenho é que, por sermos mulheres, pelo simples fato de sermos mulheres, temos que fazer sempre o DOBRO. Esta foi uma frase que ouvi numa música do Racionais, mas que fala da condição do negro.

Resgatei alguns trechos do magnífico livro O Segundo Sexo, que gostaria de compartilhar.

Em primeiro lugar, a Introdução:

As mulheres de hoje estão destronando o mito da feminilidade, começam a afirmar concretamente sua independência, mas não é sem dificuldade que conseguem viver integralmente sua condição de ser humano. Educadas por mulheres, no seio de um mundo feminino, seu destino normal é o casamento que ainda as subordina praticamente ao homem; o prestígio viril está longe de se ter apagado: assenta ainda em sólidas bases econômicas e so- ciais. É pois necessário estudar com cuidado o destino tradicional da mulher. Como a mulher faz o aprendizado de sua condição, como a sente, em que universo se acha encerrada, que evasões lhe são permitidas, eis o que procurarei descrever. Só então podere- mos compreender que problemas se apresentam às mulheres que, herdeiras de um pesado passado, se esforçam por forjar um futuro novo. Quando emprego as palavras "mulher" ou "femi- nino" não me refiro evidentemente a nenhum arquétipo, a nenhu- ma essência imutável; apôs a maior parte de minhas afirmações cabe subentender: "no estado atual da educação e dos costumes". Não se trata aqui de enunciar verdades eternas, mas de descrever o fundo comum sobre o qual se desenvolve toda a existência feminina singular.

E nestas passagens, ao final, a incrivelmente lúcida Simone de Beauvoir diz:


"É fácil imaginar um mundo em que homens e mulheres seriam iguais, porquanto é exatamente o que prometera a revolução soviética: as mulheres, educadas e formadas exatamente como os homens, trabalhariam em condições idênticas e por salários idênticos1; a liberdade erótica seria admitida pelos costumes, mas o ato sexual não seria mais considerado um "ser- viço" que se remunera; a mulher seria obrigada a assegurar-se outro ganha-pão; o casamento assentaria em um compromisso livremente consentido e que os cônjuges poderiam denunciar quando o quisessem; a maternidade seria livre, isto é, autorizariam o birth-control e o aborto, e em compensação dariam a todas as mães e a seus filhos exatamente os mesmos direitos, fossem ou não casadas; as licenças por gravidez seriam pagas pela coletividade que assumiria o cuidado dos filhos, o que não quer dizer que estes seriam retirados dos pais e sim que não lhes seriam abandonados. Mas bastará mudar as leis, as instituições, os costumes, todo o contexto social para que mulheres e homens se tornem realmente semelhantes?"

E O FINAL DO LIVRO, QUE é ESPETACULAR:

" "A relação imediata, natural, necessária do homem com o homem é a relação do homem com a mulher", disse Marx. "Do caráter dessa relação decorre até que ponto o homem se comprometeu como ser genérico, como homem; a relação do homem com a mulher é a relação mais natural do ser humano com o ser humano. Nela se mostra portanto até que ponto o comportamento natural do homem se tornou humano ou até que ponto o ser humano se tornou seu ser natural, até que ponto sua natureza humana se tornou sua natureza."
Não há como dizer melhor. É dentro de um mundo dado que cabe ao homem fazer triunfar o reino da liberdade; para alcançar essa suprema vitória é, entre outras coisas, necessário que, para além de suas diferenciações naturais, homens e mulheres afirmem sem equívoco sua fraternidade."


Fraternidade!