segunda-feira, 21 de maio de 2012

Eleições: Grécia, Italia e França



1)   Sobre a França, análises e análises e mais análises e mais notícias. A questão é colocada como “Crescimento X Austeridade”, Sarkozy representado obviamente a austeridade e Hollande, o crescimento. Análises mais atentas percebem que a questão não é essa (ou melhor, ela pode ser apenas UMA das questões em jogo): o crescimento de outros partidos, a fragmentação do voto, que configura uma situação particolar para tempos de crise onde comumente achamos que a tendencia è uma BIPOLARIDADE. De fato, os “extremos” resceram: extrema-direita e extrema-esquerda. Mas não foi suficiente para alçar o mundo em um sentimento revolucionário do tipo “mudar tudo agora”. A situação é boa ou ruim? Por enquanto, apenas é…
2)   Na Itália tivemos eleições para sindaco (prefeito) e o que mais se destacou foi o chamado Movimento 5 Stelle, que a mídia convencionou chamar de “antipolitica”. E a fragmentação dos votos e  tendências politicas entre gerações se tornou o centro do debate, ainda mais pelo cenário europeu que acompanha as grandes manifestações de jovens “indignados”, não so na Espanha, mas na europa toda (com menos força na Italia). Mais uma vez, partidos “tradicionais” de centro perderam ou mantiveram o mesmo nível de votaçao (PDL e Lega Nord, mas também o PD, por exemplo – o primeiro o partido do Berlusconi, o segundo, o partido mais conservador, que já chegou a defender a separação do Norte da Itália, e o terceiro, partido que junta parte dos comunistas do PCI, cristãos e social-democratas). Apesar do Movimento 5 Stelle (ou M5) ter eleito apenas umzinho prefeito, aqui na região do Veneto (inesperadamente?), não se cansa de falar neles. Até porque o movimento é novo e foi fundado pelo “lider carismático” Bepe Grillo, ator, comediante, mil coisas, mas que atrai principalmente jovens pelo discurso da anti-corrupção, ecologia e internet. Ou seja, basicamente a classe média. Alguns apontam o lado inovador do movimento e, outros, seu lado conservador. A longo prazo, a gente já sabe onde isso vai dar. Eu sempre faço a pergunta: se tivesse uma revolução, de que lado eles estariam? Claro que isso simplifica muito, mas dá uma boa ideia, no estilo “teoria da vara torta”, usada tb pelo Brecht como forma didática de entender o mundo. Certamente alguns penderiam mais para cá, outros para lá, mas o certo é que ficaria claro o que há de conservador neste discurso…
Foi realmente muito bom ouvir uma discussão na TV sobre o tema (acho que foi o Infedele ou Piazza Pulita), onde uma operária textil (ela mesmo se intitulava assim) da região de Prato, levantou-se indignadamente e fez um belissimo testemunho: “Antes do euro eu não ganhava muito, mas depois da conversão eu passei a ganhar muito menos e hoje tenho que sobreviver com 1000 euros, com minha família. Porque então os politicos não sobrevivem com 1000 euros ao mês?” Nossa! Foi demais a indignação e o depoimento dela, apesar do entrevistador depois ficar dando esporro, dizendo que este não era o problema. Não é este o problema? Então nos dizem que temos que viver com 1000 euros ao mês, mas ganham 6 ou 10 vezes mais, dizem que temos que fazer sacrifícios pelo país…
Mas este depoimento foi muito emblemático do sentimento das pessoas por aqui: elas vêem na corrupção e na política um ENTRAVE ao desenvolvimento econômico. A politica (e seus politicos) se tornaram o alvo principal e a descrença nas insituições e partidos é o que definitivamente explica muita coisa por aqui.
3)   Enfim, Grécia. Deixei por último por ser o caso mais complexo e o que tenho mais discutido por aqui, uma vez que tenho dois inteligentes amigos de alojamento gregos que me dão visões muito boas (apesar de quase opostas a minha e absolutamente parciais). Um deles é professor de economia, o outro é doutorando de engenharia. Temos discutido muito sobre isso e até que a cobertura dos jornais italianos sobre o tema é interessante, especialmente a partir do MicroMega (revista no estilo Le Monde, com voz para a ampla gama da esquerda italiana), os jornais Le Sole 24ore, Il fatto Cotidiano, Corriere della Sera, e alguns bons programas televisivos (Piazza Pulita, Infedele e Servizio Pubblico).
Enfim, o caso grego marcou principalmente pelo grande aumento do partido nazista e pelo fato de nenhum partido conseguir alianças suficientes para eleger o parlamento. Uma crise mesmo! Mas discuti bastante sobre o crescimento do nazismo por aqui… em grande parte, chegamos a conclusão, são votos “contra” o sistema. Não significa que todos que votaram nos Nazis se identifiquem perfeitamente com o que defendem… mas poderiam escolher não votar, votar no KKE, votar nulo, sei lá. Tem algo a mais…
Esse algo a mais è absolutamente lógico, do ponto de vista capitalista: o capitalismo estabeleceu a lei da oferta e da procura. Se tem procura demais, a oferta não será suficiente. E, no caso do mercado de trabalho, o que, segundo os nazis, poderia “desregular” este mercado, causando o desemprego? Tudo que vem de fora: de imigrantes a especuladores. O discurso nazista, portanto, encontra no antiliberalismo e no nacionalismo a resposta a própria lei estabelecida pelo capitalismo. E isso tudo parece… lógico, para qualquer trabalhador que, inevitavelmente, vive sob esta ideologia. Um escritor italiano (Marco Revelli) que li recentemente pareceu encontrar o “ponto de bala” do problema. Embora estivesse interpretanto o “sucesso” da ideologia leghista (Lega Nord) no norte da Itália, a sua lógica argumentativa vale também para interpretar o aumento dos nazis:

“O Leghismo que fascina uma parte do mundo operário, como as sereias que tentaram Ulisses, é um resíduo sólido do trabalhismo de ontem, sem o horizonte de transcendimento que o tinha animado. A ferocidade do trabalho, sem a esperança de emancipação. A força inerte da “coisa”, que assume para si a ‘persona’ ”.

Incrívelmente lúcido!

            A seguir, falo um pouco mais sobre o debate "crescimento X austeridade" e o Movimento 5 stelle.

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